Contos que abrem portas
A primeira edição de Tramela, coletânea de contos vencedora do Prêmio Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos, foi publicada em 2004. Além de marcar a estreia de uma escritora atenta às possibilidades de exploração dos caminhos e descaminhos da linguagem, o livro projetou o nome de Rita Santana para um lugar de destaque no efervescente cenário literário da Bahia do novo milênio. A partir daí, entretanto, sua trajetória se constituiria de títulos inteiramente voltados à poesia: Tratado das veias (2006), Alforrias (2012), Cortesanias (2019) e Borrasca (2024), tornando-a conhecida dentro e fora do Brasil fundamentalmente como poeta.
Esta segunda edição de Tramela, já há muito esgotado e item raro em sebos, foi rigorosamente revista pela autora e traz quatro contos novos. A intenção da Villa Olívia, ao publicá-la, foi a de restituir o lugar de excelência de sua prosa, dando oportunidade a uma nova gama de leitores de atestar o vigor e a vibração de seu verbo, a atualidade de seus temas e sua inegável inventividade.
As narrativas de Rita Santana, nas palavras da estudiosa de literatura Rosana Ribeiro Patrício na apresentação do volume, “são dádivas para leitores ávidos por desvendar escritas e destinos. Cada narrativa constitui-se de palavras que se entrelaçam nos sentidos e nas sonoridades, transformando vivências em enredos. Suas frases são consistentes, ágeis e exatas, e movem afetos e desejos, abrindo as portas da significação e do entendimento. Seus enredos reúnem razão e emoção na mesma busca de significados para a vida em face de suas adversidades.
“É preciso saborear os treze contos desta nova edição com a mesma volúpia com que se apreciam os poemas da autora. Sua prosa é visceralmente poética, impondo-se como representações e alegorias que se consolidam num realismo cotidiano, duro, cruel e inescapável.”
E, adiante, Rosana ainda acrescenta, “a escrita de Rita Santana problematiza não apenas as vivências cotidianas, mas também as condições históricas que as moldam nas práticas socioculturais. Em várias cenas se manifestam os valores da negritude, quando personagens negros vivem conflitos internos e demonstram a necessidade de autoafirmação com base nos cultos ancestrais e na busca de suas forças e identidades. São personagens fortes, emblemáticos de sua condição social, em cenas que apontam questões ainda não resolvidas na contemporaneidade e que demandam reflexão, debate e superação. Tudo mediado pela poesia, com uma linguagem sensorial, elegante e envolvente, cheia de paixão e busca de diálogo.”